AGADÁ: Live celebra 30 anos de obra com bate-papo sobre civilização africana e legado transatlântico

Live contará com intelectuais como Muniz Sodré, Felix Ayoh’Omidire, Ricardo Freitas e Gildeci Leite.
As celebrações do aniversário de 30 anos de Agadá: dinâmica da civilização africano-brasileira, obra seminal sobre negritude e legado africano no Brasil, do autor Marco Aurélio Luz, ganham mais um ato: no próximo dia 16 (terça-feira), a Editora da Universidade Federal da Bahia (Edufba) transmitirá em seu canal do YouTube um segundo bate-papo com intelectuais negros da diáspora, desta vez para debater sobre os fundamentos e a permanência das matrizes civilizatórias africanas no mundo atlântico.
A live, intitulada “A Civilização Africana e seu Legado Transatlântico" contará com três acadêmicos brasileiros e um nigeriano: os professores doutores Muniz Sodré, Félix Ayoh’Omidire e Ricardo Oliveira de Freitas. O primeiro é professor emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro e ocupante da cadeira 33 da Academia de Letras da Bahia; o segundo é professor titular da Universidade Obafemi Awolowo em Ile-Ife, na Nigéria, e escritor; e o terceiro é professor titular da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e colaborador do Programa de Pós-Graduação em Letras e Linguagens da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC). O debate será mediado pelo também professor doutor Gildeci de Oliveira Leite, professor da UNEB e sócio do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (IGHB).
A primeira live de comemoração aos 30 anos da obra ocorreu no dia 20 de agosto, com o tema “Agadá: tempo de celebrar a colheita”, reunindo intelectuais como as(os) professoras(es) doutoras(es) Helena Theodoro, filósofa considerada a primeira doutora negra do Brasil, Janice de Sena Nicolin, fundadora da Associação Artístico-Cultural Odeart, e Pedro Moraes (Mestre Moraes), presidente fundador do Grupo de Capoeira Angola Pelourinho (GCAP), sob mediação do prof. dr. Kleyson Otun Elebogi, vinculado à Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). A gravação está disponível no canal da Edufba no YouTube por meio deste link. Durante a live, os intelectuais destacaram a importância que Agadá teve em seus trabalhos enquanto filósofos, capoeiristas e professores.
“Eu não sei até que ponto estaria correto dizer que Agadá é uma enciclopédia das culturas africanas. [...] Até teve uma publicação, não é, de uma Universidade, foi escrita uma enciclopédia de história da África. Mas claro, logicamente, que se você não tem a condição de ter essa enciclopédia, você vai encontrar através do professor Marco Aurélio muitas informações sobre a África e que é o bastante para que você possa pelo menos fazer uma exigência de que seja cumprida a Lei 10.639, fazermos essa cobrança e justificar o porquê está cobrando. É porque eu aprendi no Agadá que é importante que nós, negros, tenhamos o acesso à nossa cultura, [...]à nossa ancestralidade, à nossa história, a da África”, reflete Mestre Moraes, que afirma ter tido sua forma de praticar e ensinar a capoeira alterada pela percepção que Agadá lhe deu sobre ancestralidade.
Encontro reafirma os princípios fundadores da civilização africana
A live do dia 16 de setembro tem como objetivo ressaltar o discurso inaugural da civilização africana e sua expansão transatlântica, evidenciando seus princípios fundadores, tradições filosóficas e espirituais, a transcendência do viver, a centralidade do corpo comunitário e as estratégias de continuidade da herança cultural dos antepassados. O encontro também se propõe a reafirmar a dignidade característica dos povos africanos e a importância desse legado na constituição das sociabilidades do presente.
“Agadá demonstra que é uma alteridade civilizatória legítima, irrigando nossas territorialidades essencialmente negras, erguendo vínculos comunais singulares, a exemplo da Roma Negra, uma polis transatlântica da África, como bem definiu a Ọbá Bii Mãe Aninha, ou também como Heitor dos Prazeres se referia, pequenas Áfricas. As populações negras são apresentadas no livro como sujeitos coletivos da história, que interferem diretamente no fim do tráfico escravista, além de repor nas Américas suas comunidades e instituições, baseada em seus valores, linguagens e formas de sociabilidade das suas diversas tradições”, afirma Narcimária do Patrocínio Luz, curadora da live e também autora do livro Itapuã da ancestralidade africano-brasileira, também publicado pela Edufba.
Obra pioneira: o nascimento do Agadá
A inspiração para o nascimento do AGADÁ remonta a 1989, quando o pesquisador Marco Aurélio Luz apresentou à Faculdade de Comunicação da UFRJ sua extensa tese de doutorado, intitulada Agadá: dinâmica da civilização africano-brasileira, um trabalho inédito com 1.042 páginas distribuídas em dois volumes, que investigava de forma profunda as instituições, as tradições e os valores da civilização africana no Brasil.
Apesar de seu valor reconhecido, a obra enfrentou resistência: uma grande editora chegou a recusar sua publicação sob a justificativa de que “negros não leem”, alegando inviabilidade comercial. Mesmo diante da negativa, Luz foi incentivado por colegas acadêmicos a insistir no projeto. Em 1995, dois anos após a criação da Edufba, a editora publicou o livro, dando origem a uma das obras mais influentes do campo.
Trinta anos depois, o livro Agadá contabiliza 340 citações apenas no SciELO Livros, tendo influenciado profundamente programas de pós-graduação em comunicação (UFRJ, UFF, UERJ) e educação (UNEB e UFBA), consolidando-se como marco fundamental nos estudos sobre a civilização africano-brasileira.
SERVIÇO
O quê: 2ª Live de Aniversário – 30 anos do AGADÁ: a Civilização Africana e seu Legado Transatlântico
Onde: Canal da Edufba no YouTube
Quando: 16 de setembro, às 14h
Agadá: dinâmica da civilização africano-brasileira (5ª edição)
A obra traz informações sobre as instituições das tradições africanas no Brasil, seu universo de valores e linguagens. Além disso, destaca-se o funcionamento das políticas do Estado eurocêntrico e seus desdobramentos no decorrer da história. A singularidade da abordagem evidencia-se na ruptura com os limites positivistas, valorizando as narrativas do mito da tradição africana como fonte de saber universal e atemporal. O livro abre a percepção do/a leitor/a para a pujança do continuum da civilização africana antes e durante o período colonial e neocolonial. Dessa forma, possibilita perceber o negro como sujeito coletivo da história, que infere diretamente no fim do tráfico e da escravatura, além de repor nas Américas sua comunidade baseada em valores, linguagens e formas de sociabilidade das diversas tradições socioculturais.
