Sete anos após lançamento, “Fumo de Negro” chega à quinta reimpressão
Sete anos depois de chegar às livrarias, “Fumo de Negro”: a criminalização da maconha no pós-abolição, da historiadora Luísa Saad, alcança sua quinta reimpressão pela Edufba. A demanda para uma nova tiragem chama atenção para uma pesquisa que, mesmo publicada há mais de meia década, continua colocando em discussão a história da criminalização da maconha no Brasil e suas relações com ciência, política e raça.
Em Fumo de Negro, Luísa Saad analisa documentos, jornais, teses médicas e debates científicos produzidos ao longo do século XX para investigar como se construiu o processo de proibição da maconha no Brasil. Para Luísa, porém, a pesquisa não se resume à história da substância.“Gente, é um spoiler. Não é sobre maconha. O livro é muito mais sobre os usuários e os usos que eram feitos e como isso foi criminalizado por uma elite letrada, pelos médicos, pelas autoridades sanitárias”, explica a autora.
A pesquisa volta ao período posterior à abolição, quando a população negra, recém-saída de mais de três séculos de escravidão, passou a enfrentar outras formas de controle social. É nesse contexto que a maconha aparece associada, em diferentes discursos, à população negra e a práticas culturais de origem africana. O livro conta como essas associações foram construídas e incorporadas aos discursos que passaram a justificar a repressão e a proibição da planta. A história da criminalização, nesse sentido, se cruza com a história das relações raciais no país.
As teses médicas analisadas pela autora também revelam o papel da ciência nesse processo. Concepções raciais e eugenistas presentes na produção científica da época aparecem nos debates sobre a maconha, em meio a disputas políticas e sociais que contribuíram para a formação do proibicionismo brasileiro.
Um dos exemplos analisados pela historiadora é Rodrigues Dória, autor de um dos primeiros textos brasileiros sobre a maconha, apresentado em 1915. Ao revisitar os escritos de Dória, Luísa encontrou não apenas concepções sobre a planta, mas também ideias sobre gênero, degeneração e inferioridade racial. “Quando você lê os escritos dele, parecem coisas absurdas. (…) É muito louco você pensar que o texto dele tem 110 anos e você acha que algumas visões de mundo foram superadas, mas a gente ainda tem que conviver atualmente com certos discursos.” Para a autora, determinadas visões de mundo e tentativas de controle social não morrem, mas se reinventam ao longo da história.
Historiadora e pesquisadora, Luísa Saad desenvolveu sua pesquisa no campo da História Social, investigando as relações entre a criminalização da maconha, o pós-abolição e a produção de discursos científicos no Brasil. Seu trabalho também passa pelas discussões sobre políticas de drogas e redução de danos. Atualmente, no doutorado em História Social pela UFBA, pesquisa os processos de criminalização e proibição de outras drogas no Brasil republicano.
Sete anos depois, o percurso do livro permite também olhar para o que mudou (e para o que permanece) nas formas de pensar as drogas no Brasil. Mesmo após a decisão do Supremo Tribunal Federal, em 2024, que deixou de considerar crime o porte de maconha para uso pessoal, a repressão às drogas continua marcada por desigualdades que atingem especialmente a população negra.
Na avaliação de Luísa Saad, é justamente a permanência desses estigmas que mais chama atenção quando se olha para o período analisado no livro e para a atualidade. “Eu acho que a estigmatização de determinados grupos de usuários ainda é uma permanência bastante profunda desse histórico. Além da distinção moral entre também os tipos de uso”, afirma. Essa distinção aparece, por exemplo, na forma como a cannabis medicinal passou a ser socialmente mais aceita do que outros usos da planta. Para a historiadora, o fato de um uso ser indicado por um médico ainda pesa na forma como ele é percebido socialmente, enquanto outros usos continuam associados à reprovação e ao estigma.
Ao mesmo tempo, Luísa reconhece mudanças nesse cenário nos últimos anos. Entre elas, cita o avanço das discussões sobre os usos terapêuticos da maconha, o fortalecimento da redução de danos como forma de cuidado e o crescimento de movimentos antiproibicionistas. “Há 20 anos a gente tinha a Marcha da Maconha e olhe que era criminalizada. A gente tem alguns pequenos avanços, algumas pequenas transformações”, afirma. Mas esses avanços ainda acontecem em meio a formas de estigmatização que continuam presentes no debate sobre drogas no Brasil.
A nova reimpressão é, assim, uma oportunidade para voltar ao livro e compreender como essa história foi construída, ao mesmo tempo em que permite refletir sobre o que ainda reverbera desse processo na atualidade.