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NOTA DE ESCLARECIMENTO

Viemos esclarecer que o programa Diálogos EDUFBA visa trazer entrevistas com pesquisadores e autores da universidade que trazem contribuições na construção de temáticas necessárias e importantes para a sociedade brasileira. Nesse sentido, o tema tratado em 2020 foi a produção e o reconhecimento das arquiteturas afro-brasileiras, o combate ao racismo, formação profissional a partir do paradigma da diversidade, e a luta e colaboração da universidade pelo tombamento junto ao IPHAN de um dos templos importantes de culto aos Egum no Brasil, o Omo Ilê Agboulá. No que tange à história e genealogia dos terreiros de culto aos Egum no Brasil, o entrevistado, em 2020, se referenciou, como pano de fundo da valorização do patrimônio cultural afro-brasileiro, da produção científica existente há 40 anos sobre o tema, realizada por especialistas das áreas de antropologia e história com vínculos com as religiões de matrizes africanas.   Assim, a história e genealogia documentada do culto aos Egum no Brasil encontra-se em três livros clássicos dos estudos afro-brasileiros que balizaram a fala do entrevistado. Temos Os nagôs e a morte: Pàde, Àsèsè, e o Culto Égun na Bahia, de autoria de Juana Elbein dos Santos, parceira de trabalhos de longa data de Mestre Didi (Alapini do Culto aos Egum no Brasil), publicado em 1986. O livro Ancestralidade afro-brasileira: o culto de Babá Egum, do professor, antropólogo e Babalorixá Júlio Braga, publicado em 1995. O livro Terreiro Egúngún: um culto ancestral afro-brasileiro, de autoria de José Sant´Anna Sobrinho, publicado em 2015.

O livro Os nagôs e a morte: Pàde, Àsèsè, e o Culto Égun na Bahia, nos traz a seguinte informação: 

 

A primeira brevíssima referência escrita (duas linhas) a respeito da presença do culto de ÉGÚN no Brasil aparece em 1896 na obra pioneira de Nina Rodrigues (1935:156). Entretanto, há evidências da origem de vários ‘terreiros’ ègún, fundados pelos africanos, no decorrer do primeiro terço do século XIX. Só mencionaremos, sumariamente, os nomes dos que foram mais famosos. Terreiro de Vera Cruz, fundado em torno de 1820, por um africano chamado Tio Serafim, em Vera Cruz, Ilha de Itaparica. Terreiro de Mocambo, fundado por volta de 1830 por um africano chamado Marcos-o-Velho para distingui-lo de seu filho, na plantação de Mocambo, na Ilha de Itaparica. Terreiro de Encarnação, fundado por volta de 1840 por um filho do Tio Serafim, chamado João-dois-Metros por causa de sua altura excepcional, no povoado de Encarnação. Terreiro do Tuntum, fundado em torno de 1850 pelo filho de Marcos-o-Velho, chamado de Tio Marcos, num velho povoado de africanos denominado Tuntum, na Ilha de Itaparica. Todos esses ‘terreiros’, e alguns outros que não enumeramos, eram bem conhecidos e existiram aproximadamente entre 1820 e 1935 funcionando regularmente, segundo seus calendários litúrgicos, com hierarquias e rituais bem definidos. O Òjè, sacerdote do culto de Egúngún, se conheciam, visitavam as diversas casas de culto e participavam de cerimônias que se desenvolviam fora de seus próprios ‘terreiros’. Assim constituíam uma fraternidade, uma espécie de maçonaria de características bem definidas. Os nomes e as atividades de muitos desses Òjè são bem conhecidos. Seus descendentes diretos e outros iniciados por eles nas antigas casas de culto continuam a praticar os rituais e conservam até hoje duas casas de culto de Ègún, atualmente as únicas existentes no Brasil.  O Ilê-Agbóula na Ilha de Itaparica foi fundado durante o primeiro quarto deste século e descende em linha direta dos antigos ‘terreiros’. O Ilé-Oya, de fundação muito mais recente, é apenas um ramo do precedente. Essas casas de culto dos Égúngún herdaram dos antigos ‘terreiros’ não só a liturgia e a doutrina, não só o conhecimento do mistério e dos segredos do culto, mas também os Égún ancestrais e dos segredos do culto, mas também os Égún ancestrais que são e já foram objeto de adoração nos antigos ‘terreiros’ (Santos, 1998, p. 119-120).

 

O livro Ancestralidade afro-brasileira: o culto de Babá Egum, também, traz a seguinte informação:

 

A partir do Babá Aboulá surgiram algumas outras casas de egum. Não muito longe do terreiro de Babá Aboulá, no local denominado Barro Branco, próximo ao local onde outrora existiu o famoso terreiro do Tuntum, existe o não menos importante Ilê Oiá, fundado e dirigido por Roxinho, também descendente de Eduardo Daniel de Paula. Mais recentemente, foi inaugurado outro terreiro-de-egum no mesmo Barro Branco. Seu fundador e dirigente é Eduardo, também um Daniel de Paula; pela seriedade com que administra, vem recebendo muito apoio da comunidade. As festas que ali se realizam congregam numeroso grupo de adeptos do culto aos ancestrais. Existem, ainda, mais dois terreiros exclusivamente dedicados ao culto de egum, que foram igualmente criados e dirigidos por descendentes de Daniel de Paula. Um no bairro popular de Itinga, em Salvador, fundado e dirigido por Barué; e o outro na Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro, fundado e dirigido por Laércio dos Santos (Braga, 1995, p. 33).

 

E mais recentemente o livro Terreiro Egúngún: um culto ancestral afro-brasileiro, nos relata:   

 

Na Ilha de Itaparica, os terreiros são uns próximos aos outros, no Barro Branco e na Bela Vista, chamados Ilê Oyá e Ilê Agboulá. O Ilê Oyá, hoje denominado Ilê Axé Tuntun Olukotun, foi fundado pelo Sr. Olegário Daniel de Paula, hoje babá Obaladê. Com a sua morte, assume a liderança o seu filho, Sr. Roxinho, que resolve abrir um terreiro próximo ao Ilê Tuntun antigo, do Sr. Marcos Teodoro, por volta de 1978 (Sant’Anna Sobrinho, 2015, p. 47). 

 

E, ainda:

 

O Terreiro ilê axé Tuntun Olukotun é a continuidade dos descendentes do Sr. Olegário Daniel de Paula do ilê Oyà. Seu filho, Sr. Tolentino (Roxinho), após anos de obrigações no ilê Oyá, resolve, com um grupo de colaboradores, construir e fundar um novo espaço, logo após a morte do Sr. Olegário, em local bem próximo ao antigo barracão no Barro Branco. O nome Tuntun é referente ao antigo terreiro do Sr. Marcos Alapini, no sítio dedicado a babá Olukotun, até 1935. Após a morte do Sr. Marcos, o local foi desativado. Só no início dos anos de 1980, neste mesmo local, foi reerguido o barracão de um novo terreiro, em homenagem ao axé do Tuntun. E as festividades a Iyá Oyà Ladê do Sr. Olegário ficaram na responsabilidade de sua filha Neuza Daniel de Paula, na sua casa, em outro lado do Barro Branco (Sant’Anna Sobrinho, 2015, p. 155).  

 

E, por fim, temos a publicação do artigo científico intitulado A árvore da liberdade nagô: Marcos Theodoro Pimentel e sua família entre a escravidão e o pós-Abolição. Itaparica, 1834-1968, de Castellucci Junior que aborda a história de Marcos Theodoro Pimentel (Marcos, o Velho), e toda linhagem de sangue em três gerações de descendentes até a chegada da Ialorixá Ondina Valéria Pimentel, quarta ialorixá do Terreiro Ilê Axé Opô Afonjá. Assim, ele nos relata:

 

Ao partir para Lagos, na África, e sabendo que se aproximava o momento da sua passagem para outra dimensão, Marcos deu um grande passo na direção de eternizar a sua linhagem quando fundou em Itaparica o mais importante terreiro de culto aos eguns, no distrito de Amoreira, na fazenda Tuntum (Braga, 1992). Ele tinha consciência de haver cumprido a sua missão e agora deixava o legado religioso [...] Os seus filhos, Marcos Cardoso Pimentel e José Theodoro Pimentel, deram continuidade ao culto nagô e figuraram como homens de respeito e influência na cidade de Itaparica. Ambos seguiriam a vida como comerciantes, donos de casas de aluguel e proprietários da fazenda Tuntum, onde o culto era realizado, tendo sido transferido, posteriormente, para Ponta de Areia, e atualmente segue na localidade do Barro Vermelho (Sant’Anna Sobrinho, 2015). (Castellucci, 2018).

 

A produção do conhecimento científico é dinâmica, plural e polifônica, dentro e fora da academia, e todos têm sua importância e valor. Pesquisas realizadas podem ser aprofundadas, atualizadas, ampliadas e diversificadas. Torna-se importante que temas como este possam ter seus estudos continuados para que a produção do conhecimento seja alargada e possa viabilizar a construção de políticas públicas, e que direitos sejam garantidos. Os processos de patrimonialização passam por balizamentos do equilíbrio e confluência entre documentação histórica, pesquisas de fontes diversas, memória coletiva e oral das comunidades e de seus pares correlatos.  Nesse sentido, a UFBA, com suas faculdades, institutos, centros de pesquisas, com seus quadros de professores, pesquisadores e alunos, através do ensino, pesquisa e extensão continuará desempenhando seu papel social de formação crítica e de excelência apoiando as ações de luta contra o racismo estrutural, institucional, religioso, ambiental na sociedade brasileira, avançando em trabalhos conjuntos de tombamento de templos religiosos de matrizes africanas nas esferas municipais, estaduais e federal. A universidade também luta por reconhecimento e titulação de terras quilombolas, pela valorização e registro das manifestações culturais negras, e dos demais grupos étnico-raciais que enriquecem a sociedade brasileira, colaborando com ensino, pesquisa e extensão na formação antirracista e cidadã de seus alunos. Assim, na luta e diálogo com os diversos seguimentos sociais por equidade e cidadania, nos irmanamos e nos aquilombamos em defesa da cidadania plena dos afrodescendentes do Brasil.    

 

Referências

 

BRAGA, J. Ancestralidade afro-brasileira: o culto de Babá Egum. Salvador: Edufba, 1995. 

 

CASTELLUCCI JUNIOR, W. A árvore da liberdade nagô: Marcos Theodoro Pimentel e sua família entre a escravidão e o pós-Abolição. Itaparica, 1834-1968. Revista Brasileira de História, v. 38, n. 78, p. 211–233, 2018. Disponível em: https://doi.org/10.1590/1806-93472018v38n78-10

 

SANT´ANNA SOBRINHO, J. Terreiro Egúngún: um culto ancestral afro-brasileiro.  Salvador: Edufba, 2015.

 

SANTOS, J. E. Os nagôs e a morte: Pàde, Àsèsè, e o Culto Égun na Bahia.  Petrópolis: Editora Vozes, 1998.

 

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