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Renato da Silveira

Edufba: É um prazer tê-lo conosco na nossa seção Diálogos. Fale um pouco sobre a sua vida e trajetória profissional.

 

Renato da Silveira:  Sou artista visual desde 1965 e design gráfico desde 1967, fiz diversas capas de disco, logomarca e diversas outras coisas. Participei da vida pública como artista plástico, inclusive estive na segunda Bienal de Artes Plásticas, que aconteceu na Bahia, em 1968. Fui preso durante a ditadura militar por fazer parte de movimentos de esquerda e, após ser solto, decidi ir para o exílio na França. Lá descobri que as universidades públicas francesas estavam aceitando o ingresso de imigrantes. Com isso, apresentei um projeto de pesquisa sobre o candomblé da Bahia - tema de grande prestígio na antropologia -, na Escola de Ciências Sociais, e fui aceito. Fiz mestrado e doutorado em antropologia e retornei ao Brasil nos anos 1980, retomando meu trabalho como designer gráfico. Logo depois, passei em um concurso público para ser professor da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (Facom/UFBA),na qual trabalhei até me aposentar, em 2014. Continuo atuando como artista, designer e escritor. 

 

Edufba: Você comentou que o livro “A Mitologia Maldita” é resultado de 30 anos de pesquisas. De que forma a obra se relaciona com a sua vida pessoal e acadêmica?

 

RS: A pesquisa começou por acaso, há 50 anos, quando comprei um aparelho de videocassete e comecei a ver filmes "clássicos", dos anos 1930 a 1950, faroeste, piratas, gangsters, aventuras coloniais, terror, que eu assistia apaixonadamente quando criança e adolescente. Então me dei conta de como minha cabeça tinha sido moldada para ser racista, pois os bandidos e agentes do mal eram sempre os negros, os índios, os árabes e os orientais. Comecei espontaneamente a fazer sinopses e a tomar notas. Quando entrei na UFBA, a pesquisa ganhou uma feição sistemática, com artigos publicados em revistas científicas (Afro-Ásia, Revista USP, Cultura Vozes e a francesa Autrement) e depois com um aprofundamento, durante o pós-doutorado com bolsa do CNPq em Paris e os dois pós-doutorados.

 

Edufba: O livro analisa diversos produtos culturais e expõe como muitas vezes eles servem para reforçar discursos racistas. Das obras estudadas, quais te marcaram mais quanto ao discurso emitido?

 

RS: O que me marcou mesmo foi o conjunto massivo de obras de todos os gêneros imagináveis, desde literatura científica até histórias em quadrinhos, passando por narrativas de exploradores na África. Foi um bombardeio racista durante um século e meio e isso me impactou. Por isso que o livro tem esse leque aberto estudando todo tipo de abordagem, desde textos de natureza científica até literatura infantojuvenil, porque o estímulo ao racismo começa com as crianças. No livro, trouxe exemplos de literatura infantil mostrando, por exemplo, a caricatura de um homem árabe com rosto de animais e coisas desse gênero. Então, na verdade, o impacto maior foi justamente essa tentativa tão massiva, constante e permanente de estímulo ao desprezo pelo outro.

 

Edufba: O que mais lhe chamou atenção quanto a esse “Outro” criado por meio dos discursos midiáticos?

 

RS: O que mais me chamou atenção nos discursos racistas foi a riqueza da vida do “Outro”. Por exemplo, esse "Outro" era sempre tratado como um selvagem, um ser rústico e aculturado, havia uma depreciação sistemática da cultura e da vida desses sujeitos. Em minhas pesquisas, eu descobri imagens e dados que mostram como algumas cidades africanas eram muito mais desenvolvidas nos tempos antigos do que algumas do Ocidente. Isso não se restringia apenas ao desenvolvimento urbano, mas também a conhecimentos técnicos, como a metalurgia. Essas descobertas foram muito importantes, porque fui capaz de entender e provar a profundidade da injustiça que era cometida contra povos africanos, orientais e indígenas.

 

Edufba: Na sua opinião, de que forma esses produtos culturais interferem na interpretação de mundo dos consumidores e propaga visões racistas?

 

RS: Esses discursos racistas foram formadores de um racismo estrutural, principalmente por serem produtos direcionados ao público infantil. Tinha uma quantidade muito grande de literatura com esse tipo de conteúdo produzido para esse público, como em quadrinhos. Além disso, tem a literatura voltada para o público adulto, como a religiosa e científica, que também trazia esses elementos. As religiões estavam interessadas também na depreciação do outro, porque era uma "demonstração" de que a religião do outro era uma simples superstição e que as missões missionárias, como a da Igreja Católica no Brasil, era um favor para esses povos, reforçando um discurso de cristianismo Imperial. A amplidão dos recursos retóricos utilizados e das instituições científicas e religiosas, todas foram utilizadas para criar essa mentalidade na cabeça das pessoas, de que o “Outro” era inferior para justificar a conquista de território. 

 

Edufba: Finalizando a nossa entrevista, que mensagem gostaria de deixar para os seus leitores e leitoras?

 

RS: Eu queria falar sobre a escrita do livro em si. Em conjunto com a Edufba, tentei fazer uma obra que fugisse do formato acadêmico. É um livro com uma grande importância política, porque combate e desmoraliza o racismo estrutural pela raiz e mostra como o racismo não é uma coisa espontânea. O racismo foi provocado e planejado. Então tinha que ser um livro para o grande público entender, sem a rigidez do texto acadêmico. Por isso fiz uso de uma linguagem mais lúdica; acredito que o humor é uma arma poderosa do oprimido.

 

A mitologia maldita: estereótipos políticos e raciais na gênese da indústria cultural

A obra é resultado de trinta anos de pesquisa sobre o fenômeno da intolerância, em geral, e do racismo em particular. A Mitologia Maldita é a primeira tentativa de observar a intolerância política e racial em um contexto globalizado, no momento da fundação da cultura mundial de massas, e por todos os ângulos possíveis. O autor mergulha nas doutrinas religiosas, jurídicas e científicas tendenciosas, imagens publicitárias e caricaturas jornalísticas ofensivas, até as “pequenas violências” da vida cotidiana, gírias discriminatórias, apelidos humilhantes, canções, e provérbios depreciativos, em um panorama abrangente que, mais do que nunca, permanece atual.

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